Forrageiras para o Semiárido – Conhecimento muda vida de produtor na Bahia
José Santos Souza buscou no Projeto a solução para conviver com a seca
Miguel Calmon/BA (03/08/2026) – No Semiárido baiano, produtores rurais buscam conhecimento, assistência técnica e tecnologias para conviver com longos períodos de estiagem.
Foi o que ocorreu na Fazenda Várzea de Baraúna, em Miguel Calmon (BA). A transformação começou quando José Santos Souza decidiu que aprender seria o principal investimento que ele poderia fazer na propriedade.
Aos 65 anos, o produtor carrega uma história marcada por desafios. Nascido em uma família de 15 irmãos, perdeu os pais aos nove anos de idade e precisou começar a trabalhar ainda criança para ajudar a sustentar a família. Estudou apenas até a 4ª série, mas nunca deixou de buscar conhecimento.
"Sem conhecimento ninguém vai a lugar nenhum", admite.
Com essa convicção, o produtor começou a participar de cursos, palestras e programas de Assistência Técnica e Gerencial do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).
E sempre contou com o apoio do sindicato local e da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb).
Ao longo dos anos, aprendeu sobre alimentação do rebanho, manejo de pastagens, inseminação artificial, conservação de forragens, análise de solo, gestão da atividade e melhoramento genético.
Entre todos os ensinamentos que “Seu Souza”, como é conhecido, acumulou ao longo da vida, um deles mudou sua forma de enxergar a produção no Semiárido. "Não dá para combater a seca. É preciso aprender a conviver com ela."
Planejamento – Ao invés de esperar pela chuva, Souza passou a investir em planejamento.
Aprendeu que produzir no Semiárido significa armazenar alimento para os períodos críticos, escolher forrageiras adaptadas às condições da região, manejar corretamente as pastagens e aproveitar cada recurso disponível, inclusive com captação de água da chuva, quando ela vem.
Hoje, a alimentação do rebanho na fazenda é tratada como prioridade.
A propriedade trabalha com silagem, palma forrageira, capins adaptados, pastagens rotacionadas e concentrado produzido na própria fazenda.
Forrageiras – Foram anos de aprendizado, que se somaram às técnicas que ele adotou ao participar do Projeto Forrageiras para o Semiárido.
Desenvolvido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, por meio do Instituto CNA, e pela Embrapa, o projeto pesquisou durante quase 10 anos espécies forrageiras capazes de se adaptar ao clima do Semiárido e de alimentar os rebanhos durante o período de estiagem na região, que pode durar de 180 a 240 dias por ano.
"Não adianta pensar em genética se não tem o principal, que é a alimentação para os animais", afirma.
Antes de receber a assistência técnica, o produtor pensou em abandonar a atividade. Atualmente, monitora constantemente a condição corporal das vacas e age antes que a escassez de alimento comprometa a produção.
O projeto Forrageiras entrou na vida de Souza há dois anos por meio do Sindicato Rural de Miguel Calmon.
Resultados – Na propriedade, ele implantou o capim Paiaguás em uma área degradada, após realizar análise de solo e correção da acidez com calcário. Além disso, também produz palma forrageira em quatro hectares, aproximadamente.
Segundo ele, o resultado com o Paiaguás foi superior ao obtido com o capim utilizado anteriormente. “Agora eu quero plantar só ele”, afirma, ao explicar que a espécie apresenta boa capacidade de rebrota e melhor desempenho na propriedade.
Para a coordenadora do projeto, Alenilda Carvalho, a proposta vai além da introdução de novas espécies forrageiras. "O que buscamos é identificar quais materiais são mais adaptados a cada ambiente e orientar o produtor a utilizar a forrageira certa."
Segundo ela, além da escolha das espécies, o sucesso depende do manejo adequado das pastagens, da divisão em piquetes, do planejamento alimentar e do uso de diferentes capins conforme o período seco ou chuvoso.
Produtividade – A principal limitação da propriedade continua sendo a disponibilidade de água. Mesmo assim, o produtor afirma que é possível aumentar a produtividade utilizando melhor os recursos existentes.
Quando iniciou a atividade em 2009, possuía 14 vacas e produzia aproximadamente 40 litros de leite por dia.
Hoje, ele tem 30 animais e 21 estão em lactação. A produção diária chegou a aproximadamente 441 litros e a meta é alcançar 500 litros por dia. Souza conta que em 2023 chegou a produzir 615 litros diários com 32 vacas em produção.
O leite é vendido para uma cooperativa local, além de virar outros produtos como queijo e requeijão para consumo da família.
O aumento da produtividade e os bons resultados também contribuíram para ampliar o patrimônio da família, como a aquisição de novas áreas, trator, carro e a instalação de um sistema de energia solar na propriedade, que contribuiu para a redução dos gastos com energia, que segundo o produtor, chegavam a R$ 800/mês e, agora, ele paga, em média, R$ 60/mês.
O maior legado – Não foi só a produção de leite que Seu Souza viu crescer ao buscar conhecimento. Para ele, sua maior conquista é poder continuar o legado da família no campo, que passou para ele dos seus pais e agora ele vê nas mãos dos filhos e netos.
É o caso do neto mais velho, José Francisco dos Santos Veloso, de 22 anos, que faz o curso Técnico em Agropecuária no Centro de Capacitação do Senar Bahia em Miguel Calmon e já participa das atividades da propriedade.
Inspirado pelo avô, busca levar novas técnicas para a fazenda. “Estou fazendo esse curso para buscar conhecimento e aplicar aqui”, conta.
Além da formação técnica, José Francisco participa de cursos e eventos voltados ao setor agropecuário e já contribui com sugestões sobre manejo e reprodução do rebanho.
Para Souza, ver a nova geração seguindo esse caminho representa a confirmação de que o maior investimento feito ao longo da vida valeu a pena. "Tenho o prazer de ver meus netos estudando. Se Deus quiser, eles também vão seguir o caminho do conhecimento."
O filho de Seu Souza, Romualdo Santos Veloso, 32 anos, trabalha na cidade, mas diz que todo final de semana está na propriedade para ajudar o pai na produção de leite. “É o legado da família, é importante que eu esteja aqui para contribuir.”
A seca continua chegando todos os anos para o Seu Souza e para milhares de outros produtores da região semiárida. No entanto, para alguns, o que mudou foi a forma de enfrentá-la.
“Antigamente a gente dizia para os filhos que, se não fossem estudar, teriam que ficar na roça e puxar enxada. Hoje é o contrário, incentivamos que saiam para estudar porque só se produz no campo com conhecimento. Foi o conhecimento que mudou minha vida”, finaliza.
Visita de jornalistas – Um grupo de jornalistas do Brasil e do exterior esteve, no domingo (2), na Fazenda Várzea de Baraúna para conhecer os processos produtivos e o Forrageiras para o Semiárido.
Os jornalistas foram convidados conhecer o projeto pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, por meio do Instituto CNA.
O grupo foi recebido pelo próprio produtor José Santos Souza, por seus familiares, pelo vice-presidente da CNA e presidente da Faeb, Humberto Miranda, por técnicos e integrantes do Sistema CNA/Senar.