Workshop discute irrigação e recuperação de bacias como soluções dos desafios climáticos
Evento promovido pela CNA e o MDIR reuniu especialistas, na terça (16), em comemoração ao Dia Nacional da Agricultura Irrigada
Brasília (17/06/2026) – O 4º Workshop “Setor Agropecuário na Gestão da Água” reuniu especialistas, na terça (16), para debater o uso da irrigação, a recuperação de bacias hidrográficas e outras soluções baseadas na natureza, como estratégias para enfrentar os desafios climáticos.
O evento, que fez parte da programação da semana nacional da Irrigação, foi realizado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), com o objetivo de promover o diálogo técnico, legislativo e institucional sobre práticas sustentáveis e inovação na gestão da água no agro.
Veja os painéis da manhã: https://cnabrasil.org.br/noticias/especialistas-defendem-cooperacao-e-superacao-de-entraves-para-ampliar-irrigacao
O primeiro painel da tarde abordou o tema “Cenário Climático e Soluções Baseadas na Natureza Aplicadas ao Agro”. O coordenador-geral de Infraestruturas de Irrigação do MIDR, Marcus Vinicius Araújo, conduziu a discussão e destacou a importância de trabalhar a agenda de agricultura irrigada em parceria com a agropecuária. “Esse é um tema que une toda extensão do setor. A sociedade espera uma resposta integrada”.
O chefe-geral da Embrapa Cerrados, Jorge Enoch Furquim, participou do painel e abordou as Soluções Baseadas na Natureza (SBN), estratégias inspiradas e fundamentadas em processos naturais que atuam de forma ampla sobre o uso e a cobertura do solo, gerando múltiplos benefícios ambientais, sociais e econômicos.
Segundo Jorge, as SBNs não operam isoladas. Juntas, transformam a propriedade rural em uma infraestrutura hídrica multifuncional. “SBN não exclui a infraestrutura cinza (obras civis), mas integra às ações de recuperação dos processos naturais. A integração contínua das soluções pode reduzir custos da escassez hídrica a longo prazo. Nenhuma solução isolada resolve a emergência climática ou hídrica, a segurança em larga escala depende do encaixe perfeito”.
Em seguida, o presidente da Comissão Nacional de Irrigação da CNA, Davi Schmidt, ressaltou que, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), as Soluções Baseadas na Natureza (SBN) envolvem ações para proteger, conservar, restaurar e utilizar de forma sustentável os ecossistemas terrestres, de água doce, costeiros e marinhos, promovendo benefícios para a biodiversidade e o bem-estar humano.
Durante sua palestra, Davi citou diversas iniciativas brasileiras alinhadas às SBNs, como o programa de Proteção de Nascentes do Senar, o projeto Biomas da CNA e da Embrapa e o Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) do governo. “O agro brasileiro é sustentável e as práticas adotadas pelos agricultores brasileiros são estratégicas para mitigação das mudanças climáticas”.
No painel seguinte, o superintendente adjunto de Estudos Hídricos e Socioeconômicos da Agência Nacional de Águas (ANA), Tibério Magalhães, e o coordenador de Estudos Setoriais e Econômicos, Fernando Cavalcanti, apresentaram a publicação “Atlas Irrigação Brasil”, que consolida estudos sobre o panorama atual e uma visão de futuro sobre a agricultura irrigada brasileira.
Fernando informou que a primeira versão do documento foi lançada em 2017 e a mais atual é de 2021, com 7 capítulos. Ele disse que novos estudos estão sendo realizados para atualização do Atlas. Entre os novos dados, ele destacou que a pressão hídrica está concentrada em poucos territórios e sistemas: 28 polos nacionais de agricultura irrigada concentram 50% da área irrigada e 60% da demanda hídrica do setor. Além disso, seis estados (MG, GO, BA, SP, RS E MT) concentram 92,5% da área de pivôs. Além disso, ressalta que cerca de 80% das áreas irrigadas estão na pequena propriedade.
No painel sobre o tema “Irrigação como solução ambiental, climática e econômica”, o coordenador-geral de Irrigação e Conservação de Solo e Água do Ministério da Agricultura, Gustavo Goretti, e a supervisora de Projetos do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Romelia Moreira de Souza, discutiram como a irrigação pode contribuir para a estabilidade da produção, aumentar a eficiência do uso da água e fortalecer a adaptação do agro às mudanças climáticas.
O presidente da Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (ABID), Sílvio Carlos Lima, foi o mediador do debate.
Romelia falou sobre o desafio climático para se manter a resiliência agroalimentar como prioridade. Ela citou a plataforma do IICA 'Água e Alimento', focada em integrar políticas já existentes nos diversos países das Américas, com foco em facilitar o acesso ao financiamento verde disponível nos bancos de desenvolvimento. Ela sugeriu ainda que o Sistema CNA/Sistema compartilhe ações com os demais países por meio da plataforma.
Gustavo Goretti, do Mapa, falou sobre o momento crítico que o planeta está vivendo relacionado às mudanças climáticas que tem contribuído para aumentar os riscos tanto na produção quanto na inflação. Segundo ele, o agro brasileiro já sofreu prejuízos de R$ 260 bilhões devido aos eventos climáticos extremos, onde a seca é o principal fator, com prejuízos de R$ 57,4 bi apenas em 2022.
Para o coordenador, o Brasil vive um paradoxo hídrico em que a água doce do país não chega a todas as regiões e o futuro mostra que a produção de alimentos deve aumentar em mais de 60% usando mais de 40% de água até 2050. Goretti reforçou que a irrigação é um meio para isso porque é uma solução baseada na natureza.
No Painel “Revitalização de Bacias Hidrográficas”, mediado pelo presidente da Comissão Nacional de Irrigação da CNA, Davi Schmidt, foram debatidas as iniciativas voltadas à recuperação, conservação e ao uso sustentável dos recursos hídricos, com foco na segurança hídrica, na gestão das bacias hidrográficas e na contribuição da agricultura irrigada para a preservação ambiental.
Alexandre Saia, coordenador-geral de Planejamento e Políticas de Recursos Hídricos do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), apresentou as ações do Programa Nacional de Revitalização de Bacias Hidrográficas, iniciativa do Governo Federal voltada à recuperação, conservação e ao uso sustentável dos recursos hídricos em regiões estratégicas do país.
Segundo ele, o programa reúne diretrizes, metodologias e instrumentos de planejamento para identificar áreas prioritárias e orientar a execução de projetos voltados à recuperação ambiental das bacias e ao fortalecimento da segurança hídrica. “O diagnóstico permitiu identificar as sub-regiões hidrográficas mais críticas do país e direcionar os esforços para onde os desafios são maiores”, afirmou.
Representando a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA), Eneas Porto apresentou experiências desenvolvidas no oeste baiano para monitoramento e conservação dos recursos hídricos. Ele destacou o Programa Integrado de Monitoramento Hídrico do Aquífero Urucuia, região que concentra o maior polo de irrigação por pivô central do Brasil, com cerca de 409 mil hectares irrigados.
De acordo com Eneas, a adoção de práticas conservacionistas, como plantio direto, recuperação de nascentes e uso eficiente da irrigação, elevou a infiltração da água da chuva no solo de 10% para 25%. Já o Programa de Monitoramento de Nascentes e Veredas registrou aumento de até quatro vezes na vazão de algumas nascentes monitoradas.
Encerramento – Durante o debate final, os participantes destacaram a importância da participação do setor produtivo nos comitês gestores responsáveis pela análise de propostas para os programas de revitalização, além da necessidade de aperfeiçoamentos na legislação relacionada ao uso dos recursos hídricos.
A discussão também reforçou a importância de consolidar e dar visibilidade às iniciativas que promovem a gestão sustentável da água e a recuperação das bacias hidrográficas brasileiras.